
Camila sempre achou que tinha o controle sobre a sua vida até tentar viver no Paraguai. Nascida e criada em Curitiba, com raízes profundas nas tradições familiares e no amor pela sua cidade, ela jamais imaginou que um dia pisaria em solo estrangeiro, deixando para trás a cultura que a acompanhava desde o berço, a culinária que a acolhia nas tardes de domingo e o grupo de amigos tão próximos.
Mas, o sonho de cursar medicina exigia que algumas coisas tivessem que ficar para trás, para que outras fossem para frente.
A mudança para um pequeno apartamento em Ciudad del Este, aconteceu logo no começo de 2023.
A decisão de viver no Paraguai não foi repentina. Ela pensou e pesquisou muito antes de decidir estudar e morar fora do seu país de origem.
E ao entender que era a opção mais viável e vantajosa no momento, precisou tomar atitudes rápidas. Então, em poucos meses se viu em um destino antes inesperado, longe das pessoas que mais ama, dos sabores familiares e até das festas brasileiras.
Depois da mudança
No início, a mudança parecia emocionante. As primeiras semanas em Ciudad del Este foram de descobertas. A cidade, até que tinha um ritmo que lembrava o Brasil, especialmente pelas ruas cheias de brasileiros que, como ela, buscavam novos horizontes.
Mas, conforme os dias foram passando, ela começou a sentir o peso da distância. A saudade se fez presente, não apenas da família, mas também do Brasil em si, da terra que pulsava com uma energia única.
Viver no Paraguai era diferente. Tudo parecia um pouco mais silencioso, mais contido. A cidade, que à primeira vista parecia familiar, começou a se revelar um tanto quanto solitária. E, embora repleta de brasileiros, as ruas eram muito diferentes das de Curitiba.
Embora o espanhol e o português tenham semelhanças, o guarani, que é a língua nativa do país, estava ali, o tempo todo, em placas, anúncios e nas conversas cotidianas. Com isso, Camila se sentia perdida, como se estivesse em um labirinto, tentando entender algo que era parcialmente desconhecido.
Achando uma rede de apoio
O que a confortava, era o fato de que muitos brasileiros estavam passando pelas mesmas dificuldades. E o lado bom de tudo, foi que Camila fez amizade com alguns deles, que também tentavam encontrar o seu lugar fora de casa.
Assim, juntos, eles formaram uma pequena rede de apoio, uma verdadeira família à parte. Riam das dificuldades que enfrentavam com a língua e as confusões culturais, mas também compartilhavam as saudades que sentiam do Brasil.
Ela sentia uma conexão profunda com aqueles brasileiros, e, aos poucos, esse sentimento de pertencimento foi ajudando a suavizar o peso da adaptação.
Outro desafio de viver no Paraguai foi a comida. No Brasil, ela adorava os pratos caseiros da mãe, incluindo a feijoada com farofa e vinagrete aos sábados. Em Ciudad del Este, apesar da grande quantidade de brasileiros, as opções de comida não eram as mesmas.
O asado paraguaio, embora saboroso, não tinha o tempero familiar que ela estava acostumada. Os ingredientes eram diferentes, e o arroz paraguaio, geralmente feito com milho e carne, não conseguia substituir a alma do arroz com feijão que ela sentia tanta falta.
Se acostumando com a nova vida
Com o tempo, ela começou a descobrir as sutilezas da cultura paraguaia. O povo discreto e acolhedor, tinha suas próprias tradições e ritmos. Então, ficou encantada com as bebidas tradicionais preparadas com erva-mate e com os encontros sociais simples, mas repletos de calor humano, que aconteciam no centro da cidade.
Embora a alegria fosse mais contida, havia uma tranquilidade na vida paraguaia que Camila passou a valorizar, principalmente aos finais de semana, quando caminhava pela cidade, observando a rotina simples dos locais e a calma que vinha com a saudade do Brasil.
Nesses momentos, sentia que estava amadurecendo e lidando com a vida adulta e foi aprendendo a ver a beleza nos pequenos gestos, como no modo como as pessoas paravam para conversar nas calçadas ou na maneira respeitosa com que se cumprimentavam.
Lidando com a saudade
De fato, a saudade nunca desapareceu completamente, mas Camila aprendeu a lidar com ela. E sabe qual o segredo disso? Ela encontrou maneiras de trazer o Brasil para perto.
Fazia visitas ao mercado brasileiro para comprar seus ingredientes favoritos, preparava pratos da sua terra e, sempre que possível, telefonava para a família. Nas festas de fim de ano, sempre fez questão de viajar para Curitiba, recarregava as energias e voltava com o coração mais tranquilo.
Um futuro brilhante pela frente
Pouco mais de dois anos após ter chegado a Ciudad del Este pela primeira vez, Camila percebe o quanto essa cidade, que antes parecia apenas uma etapa temporária, agora se molda como uma verdadeira casa.
O sonho de se tornar médica está mais próximo do que nunca e a ideia de ficar, que antes parecia impossível, agora soa como uma possibilidade real.
O Paraguai, com seu ritmo tranquilo e tradições singelas, a ensinou a se reinventar e a encontrar paz em meio a saudade. E assim, o que começou como um caminho contado em dias, agora pode se estender em anos e talvez em uma vida inteira, onde a futura doutora, com suas raízes e novos sonhos, se sente pronta para o que o futuro reserva.