
Se perguntassem para a Alice de apenas 10 anos qual era o seu maior sonho, certamente ela responderia que era ver a neve.
História de Alice
Nascida e criada no interior de Minas Gerais, ela viveu a maior parte da sua vida onde o calor intenso do verão se misturava ao cheiro de café torrado, e a estação mais fria era só uma brisa, nada que um casaco leve não resolvesse.
A neve parecia algo tão distante, quase irreal, dessas coisas que a gente só vê em filme. Então, quando surgiu a oportunidade de se mudar para o Canadá, ela agarrou sem pensar duas vezes.
Seria uma aventura, um recomeço, uma chance de ser alguém além dos limites que a cidade pequena havia traçado para ela.
A mudança foi rápida e, em poucas semanas, Alice estava em Toronto, cercada por prédios altos e ruas largas, onde tudo parecia grande demais e as pessoas falavam em um idioma que ela ainda se esforçava para entender.
Vida em Toronto
No começo, a empolgação da nova vida em Toronto escondia qualquer saudade. Era muito mágico realizar um sonho.
As ruas iluminadas, o metrô que cortava a cidade em questão de minutos, e o frio, que logo chegou, transformando as árvores e calçadas em um cenário branco e silencioso, eram fascinantes.
A primeira neve foi uma experiência tão inesquecível, que ela paralisou de emoção.
Saiu do prédio onde morava e ficou parada, observando os flocos caírem devagar, pousando nas luvas de lã que sua mãe tinha mandado em suas malas.
Cada floco daqueles parecia um pequeno milagre, e ela se viu rindo sozinha, encantada com a paisagem que sempre havia sonhado em ver.
Mas, conforme o inverno avançava, a novidade deu lugar ao peso de um frio constante, quase sufocante. Os dias escureciam cedo, e, em algumas semanas, Alice começou a sentir algo que nunca havia experimentado no Brasil: a solidão de estar longe.
A saudade de casa
A saudade se manifestava em detalhes simples, mas profundos. Não era só o idioma que a fazia se sentir isolada, mas a falta de familiaridade com quase tudo. O jeito como as pessoas se cumprimentavam mais distantes, as comidas que ela não conhecia tanto e os abraços que estavam a milhares de quilômetros.
Com o tempo, até o que ela considerava ruim em casa começou a parecer uma lembrança boa, como as reclamações do pai sobre o trânsito ou as broncas da mãe quando ela passava tempo demais no celular.
A primeira vez que chorou foi em um supermercado, ao passar pelo corredor de frutas e ver morangos. Eram pequenos e caros, longe do aroma doce dos morangos que comprava na feira de domingo em sua cidade natal. Aquilo desencadeou um choro que ela não conseguiu conter, e, de repente, estava ali, entre frutas exóticas e conhecidas, se sentindo uma estrangeira não só no Canadá, mas quase fora de si mesma.
E, a cada vez que ligava para casa, era quase impossível não sentir que a qualquer momento poderia pegar o próximo voo e voltar, desistindo da nova vida em Toronto.
Mas, ela não podia desistir de viver aquele sonho e precisou se recompor. Queria provar também que havia crescido e que era capaz de ter as suas próprias conquistas.
Então, passou a ver ainda mais o lado bom das coisas, incluindo o sistema de transporte eficiente, a segurança nas ruas e as boas oportunidades de emprego.
Superando a solidão
Começou a trabalhar em um escritório, aprendeu a cozinhar algumas receitas brasileiras para lembrar do gosto de casa e comprou uma cafeteira de segunda mão, só para ter o cheiro do café pela manhã.
Para lidar com a rotina em ritmo acelerado da sua vida em Toronto, procurou na internet por grupos de brasileiros que também moravam por lá. Pegou dicas, fez novas amizades e logo estava cercada de bons amigos, que compartilhavam sentimentos parecidos com os dela.
Assim, foi finalmente aprendendo a superar a solidão. Investiu em se manter ocupada. Encontrou novos hobbies e passou a escrever tudo o que sentia diariamente.
Dessa forma, transformou a cidade das neves no lar dos seus sonhos, um espaço que podia ser quem era, inclusive uma nova versão de si mesma.
Hoje, Alice ainda sente saudades, não é sempre que dá para enganar o coração. Mas, entende que esse sentimento faz parte da vida que sempre desejou.
Então, cada vez que pensa na sua casa, ela entende que trouxe um pouco do Brasil em suas memórias, pois aprendeu que o maior desafio não está em conquistar o novo, mas em encontrar um lar dentro de si.